O verão desafia a saúde íntima da mulher

Há sintomas que parecem ter estação do ano


Todos os anos, quando começa o verão, não são poucas as mulheres que receiam que os mesmos sintomas voltem a aparecer. Sabem que bastam alguns dias de praia, piscina ou viagens para voltar a sentir ardor, comichão, corrimento diferente do habitual ou um desconforto íntimo que acaba por condicionar umas férias que deveriam ser sinónimo de descanso, conforto e bem-estar.


A maioria associa estes sintomas a uma infeção, mas hoje sabemos que essa explicação é apenas parte da história. A ciência mostrou-nos que aquilo que muda primeiro, frequentemente, não é a presença de um microrganismo causador de doença, mas sim o equilíbrio do microbioma vaginal. Antes de surgir uma infeção, existe uma alteração silenciosa deste ecossistema, um dos sistemas de proteção mais sofisticados do organismo feminino e, paradoxalmente, um dos menos conhecidos.



Um ecossistema invisível que trabalha todos os dias para a proteger


A vagina não é um ambiente estéril. Pelo contrário, é um ecossistema vivo, habitado por milhões de microrganismos que coexistem em equilíbrio e desempenham um papel essencial na proteção da saúde íntima. A este conjunto damos o nome de microbioma vaginal.


Longe de serem prejudiciais, muitos destes microrganismos são essenciais para a saúde íntima. Entre eles destacam-se as bactérias do género Lactobacillus, responsáveis por manter o ambiente vaginal naturalmente ácido, produzir substâncias antimicrobianas e dificultar o crescimento de bactérias e fungos potencialmente causadores de doença. A investigação dos últimos anos mostrou que este microbioma desempenha um papel essencial nos mecanismos naturais de defesa da saúde íntima da mulher. Participa na proteção contra infeções, ajuda a regular a resposta inflamatória local, e a manter a integridade da mucosa vaginal e contribui para preservar o conforto íntimo ao longo das diferentes fases da vida. Quando este equilíbrio se mantém, a mulher nunca chega a desenvolver qualquer sintoma.


Podemos imaginar este ambiente como um ecossistema semelhante a outros. Tal como acontece numa floresta ou num jardim saudável, não é a existência de diferentes espécies que representa um problema, mas sim a perda do equilíbrio entre elas. Quando esse equilíbrio se mantém, protege, mas, por outro lado, quando se perde, o ambiente torna-se mais vulnerável ao aparecimento de alterações e doença.



Então porque é que o verão representa um desafio?


Para este ecossistema, o verão não é apenas mais uma estação do ano, mas sim uma sucessão de desafios que testam o seu equilíbrio natural e podem alterá-lo.

O aumento da temperatura e da humidade, as longas horas com o fato de banho vestido, a maior fricção provocada pela roupa mais justa ou pela prática de exercício físico e o contacto repetido com a água do mar ou das piscinas modificam o ambiente íntimo. A estes juntam-se frequentemente as viagens, as alterações das rotinas de sono, da alimentação e da hidratação e, para muitas, uma maior frequência da atividade sexual, fatores que, embora perfeitamente naturais, representam novos estímulos.


Isoladamente, nenhuma destas situações constitui um problema. Pelo contrário, fazem parte de um verão saudável e ativo. O problema surge quando vários destes fatores coexistem e ultrapassam a capacidade natural de adaptação do microbioma, favorecendo um desequilíbrio conhecido como disbiose vaginal, em que a capacidade natural de defesa da região íntima fica diminuída.



Disbiose: quando o equilíbrio deixa de existir


Disbiose significa simplesmente que o microbioma perdeu o seu equilíbrio habitual. As bactérias protetoras diminuem, o pH vaginal altera-se e alguns microrganismos encontram condições mais favoráveis para crescer.


É muitas vezes nesta fase que surgem candidíases, vaginoses bacterianas, irritação persistente ou desconforto íntimo, sobretudo em mulheres com episódios recorrentes.

Curiosamente, nem todas respondem da mesma forma. Duas mulheres podem passar exatamente as mesmas férias, dormir no mesmo hotel, frequentar a mesma piscina, utilizar o mesmo protetor solar, no entanto, uma não desenvolve qualquer sintoma, enquanto a outra desenvolve uma candidíase poucos dias depois.


Porquê? Porque cada mulher possui um microbioma único e a diferença está, muitas vezes, na forma como ele responde aos diferentes estímulos.



Cada mulher possui um microbioma único


Uma das descobertas mais fascinantes dos últimos anos foi perceber que não existem duas mulheres com um microbioma vaginal exatamente igual.


A investigação da última década demonstrou que a composição do microbioma vaginal varia com a idade, as hormonas, a atividade sexual, a utilização de antibióticos, algumas doenças, os hábitos de higiene, a gravidez, a menopausa e até fatores genéticos. E é precisamente por isso que duas mulheres com os mesmos sintomas podem necessitar de estratégias completamente diferentes.


Esta nova compreensão alterou a forma como abordamos a saúde íntima feminina. O objetivo já não é apenas tratar a infeção, mas sim compreender por que razão o equilíbrio foi perdido e como pode ser restaurado.



Na perimenopausa e menopausa o desafio pode ser ainda maior


A redução dos níveis de estrogénio é outro fator que altera profundamente o ambiente vaginal, interferindo com o seu delicado equilíbrio.


Com as mudanças hormonais, a mucosa torna-se mais fina e menos hidratada, diminui a disponibilidade de glicogénio, que serve de alimento às bactérias protetoras, o pH vaginal, normalmente ácido, aumenta, o número de Lactobacillus diminui e, como consequência, o ecossistema vaginal torna-se mais vulnerável à secura vaginal, irritação, infeções urinárias recorrentes, vaginoses bacterianas ou candidíases.


Por isso mesmo, também os cuidados íntimos durante o verão não devem ser iguais para todas as mulheres, mas devem sim respeitar a idade, a fase hormonal e as necessidades individuais.



Cinco estratégias simples para proteger o microbioma durante o verão


1. Não permaneça muitas horas com o fato de banho molhado: Sempre que possível, troque-o após sair da água para reduzir humidade e maceração da pele.


2. Escolha roupa interior respirável: Os tecidos de algodão favorecem uma melhor ventilação da região íntima e ajudam a diminuir o excesso de humidade.


3. Evite lavagens íntimas excessivas ou produtos agressivos: A higiene íntima deve respeitar o equilíbrio natural do microbioma. Mais higiene nem sempre significa ser melhor ou estar mais protegida. Para os cuidados íntimos, escolha formulações suaves, sem perfume, dermatológica e ginecologicamente testadas e adaptadas ao pH fisiológico vulvar.


4. Mantenha uma boa hidratação: A hidratação adequada contribui para a saúde das mucosas e para o conforto íntimo, sobretudo nos meses mais quentes. Escolha formulações adequadas à região íntima e aplique-as regularmente, em camada fina, sempre que necessário.


5. Se costuma ter infeções recorrentes no verão, não espere pelos sintomas: Uma avaliação médica antes das férias pode permitir definir estratégias preventivas individualizadas e reduzir significativamente a probabilidade de recorrência.



O que gostaria que guardasse deste texto


Aprendemos que cuidar da saúde íntima significava tratar infeções. Hoje sabemos que a verdadeira prevenção começa muito antes: começa por preservar o equilíbrio de um ecossistema invisível que trabalha diariamente para proteger a mulher.

No verão, nem sempre é a infeção que aparece primeiro. Na maioria das vezes, aquilo que muda primeiro é o microbioma, e compreender este equilíbrio transforma a forma como olhamos e cuidamos da saúde íntima feminina. 

A saúde íntima começa muito antes dos sintomas. Começa no equilíbrio de um ecossistema invisível que protege a mulher, mesmo quando ela nem sequer se apercebe da sua existência. 


Referências científicas:

International Society for the Study of Vulvovaginal Disease (ISSVD). Vaginal Microbiome and Vulvovaginal Health.*

International Society for Infectious Diseases in Obstetrics and Gynecology (ISIDOG). Guidelines on Vaginal Dysbiosis and Bacterial Vaginosis.*

Greenbaum S, Greenbaum G, Moran-Gilad J, Weintraub AY. Ecological dynamics of the vaginal microbiome in relation to health and disease.* Am J Obstet Gynecol.

Ravel J et al. Vaginal microbiome of reproductive-age women.* Proc Natl Acad Sci USA.

Petrova MI et al. Lactobacillus species as biomarkers and therapeutic targets in the vaginal microbiome.* FEMS Microbiology Reviews.





Vera Santos

Médica | Clínica Geral & Bem-Estar

Medicina Estética Regenerativa & Saúde Íntima da Mulher


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