O envelhecimento feminino começa antes das rugas
Quando se fala em envelhecimento, continuamos a olhar para o espelho, mas talvez estejamos a olhar para o lugar errado.
As rugas são apenas o capítulo mais visível de uma história que começou muito antes. Quando as vemos surgir, muitas das mudanças biológicas que influenciam a forma como envelhecemos já estão em curso há anos. O envelhecimento feminino começa de forma silenciosa. Muito antes de surgir uma ruga, o organismo já está a sofrer alterações no músculo, no osso, nos compartimentos de gordura que sustentam o rosto, nas hormonas, no metabolismo, na capacidade de regeneração celular e nos mecanismos que controlam a inflamação. Por outras palavras: quando a pele mostra os primeiros sinais, o envelhecimento já não está a começar. Está apenas a tornar-se visível.
Então, se o envelhecimento não começa na pele, onde começa?
Uma das primeiras estruturas a sofrer alterações relacionadas com o envelhecimento não é a pele, mas sim o músculo. A partir da quarta década de vida, a mulher começa gradualmente a perder massa muscular, um processo que tende a acelerar durante a transição menopáusica. Porque o músculo desempenha um papel central na saúde metabólica, força, mobilidade e longevidade, a sua perda associa-se a menor gasto energético, maior tendência para acumular gordura e maior vulnerabilidade física ao longo do tempo. ¹
Existe ainda um envelhecimento que não se vê ao espelho: a inflamação crónica de baixo grau, e esta desempenha um papel importante. Hoje sabemos que o envelhecimento está frequentemente associado a um estado de inflamação crónica de baixo grau, um fenómeno conhecido como inflammaging. Esta inflamação silenciosa raramente provoca sintomas evidentes no dia a dia, mas influencia a qualidade da pele, a composição corporal, a energia, a saúde cardiovascular e a velocidade com que envelhecemos. 2
O sono é outro protagonista frequentemente subestimado. Enquanto dormimos, o organismo entra num verdadeiro estado de reparação biológica, não apenas reparação celular fundamental, mas também consolidação da memória, regulação hormonal e recuperação dos tecidos. Quando o sono perde qualidade de forma persistente, perde-se também parte da capacidade de recuperar, regenerar e adaptar os tecidos ao longo do tempo e o organismo envelhece em piores condições. 3
Nas mulheres, as hormonas funcionam como verdadeiras diretoras da orquestra biológica. A partir da perimenopausa, a redução progressiva dos níveis de estrogénio influencia não apenas a pele, mas também o músculo, o osso, a distribuição da gordura corporal, a mucosa vaginal, o metabolismo e a saúde cardiovascular. O envelhecimento feminino é um fenómeno global e não apenas uma questão estética. 4
É precisamente por isso que a medicina regenerativa moderna deixou de olhar apenas para aquilo que envelhece e passou a procurar compreender aquilo que faz envelhecer. Hoje, fala-se cada vez mais em qualidade tecidular, composição corporal, saúde metabólica, regeneração e longevidade saudável, e o objetivo já não é apenas corrigir sinais visíveis, é compreender os mecanismos biológicos que estão por trás deles.
O que pode começar a fazer hoje?
Embora o envelhecimento seja inevitável, existem fatores que influenciam a forma como envelhecemos. Algumas estratégias simples podem ajudar a preservar função, saúde e qualidade tecidular ao longo dos anos:
1. Preserve músculo antes de tentar perder peso: O músculo é um dos principais determinantes da saúde metabólica e da longevidade e a composição corporal é mais importante do que o número que vê na balança.
2. Proteja o sono com o mesmo cuidado com que protege a pele: Uma boa rotina de sono influencia hormonas, metabolismo, inflamação e regeneração.
3. Invista em proteína e treino de força: São dois dos estímulos mais eficazes para preservar função e qualidade tecidular ao longo dos anos.
4. Reduza a inflamação silenciosa: Alimentação equilibrada, atividade física, gestão do stress e saúde intestinal influenciam diretamente a velocidade do envelhecimento. São pequenas escolhas repetidas diariamente que influenciam mais o envelhecimento do que medidas extremas tomadas ocasionalmente.
5. Pense em prevenção antes de pensar em correção: A melhor altura para começar a cuidar da qualidade dos tecidos é antes de os sinais se tornarem evidentes.
Cuidar do envelhecimento não significa tentar parar o tempo, mas sim criar as melhores condições para que o organismo mantenha a sua capacidade de adaptação, recuperação e funcionamento ao longo dos anos, porque o envelhecimento feminino não começa na pele, esta é apenas o lugar onde ele se torna visível.
2Conceito descrito por Franceschi et al. (Ann N Y Acad Sci, 2000) e por Franceschi et al. (Nat Rev Endocrinol, 2018).
3Baseado em Xie et al. (Science, 2013), Mander et al. (Neuron, 2017) e Medic et al. (Nature and Science of Sleep, 2017).
4Baseado em Davis et al. (Nature Reviews Disease Primers, 2015), Santoro et al. (Endocrinol Metab Clin North Am, 2015), Thornton (Dermato-Endocrinology, 2013).
Vera Santos
Médica | Clínica Geral & Bem-Estar
Medicina Estética Regenerativa & Saúde Íntima da Mulher