Porque é que a gordura abdominal aumenta na peri-menopausa e menopausa?
“Eu não estou a comer mais, faço praticamente o mesmo que fazia antes, mas a barriga aumentou e não consigo diminuir.”
A) O que muda e porque é que a barriga parece surgir mesmo quando os hábitos não mudaram.
Durante anos, conheceu o seu corpo, sabia o que funcionava, como reagia e até como recuperar dos excessos e, de repente, algo muda. A cintura aumenta, a energia diminui e aquilo que sempre resultou parece deixar de funcionar. E sim, muitas são as mulheres que chegam à perimenopausa ou menopausa com a sensação de que o corpo está diferente, não pediu autorização e a primeira reação é, muitas vezes, culpar-se. Mas a realidade é mais complexa, e, acima de tudo, mais biológica.
O corpo não está contra si, está diferente
Durante a fase reprodutiva, o estrogénio ajuda a determinar onde a gordura é armazenada, por isso, a mulher acumula gordura sobretudo nas ancas e coxas. Quando os níveis de estrogénio começam a diminuir, o organismo altera gradualmente a forma como distribui não só a gordura, mas também a energia.
Nesta fase, a gordura passa a acumular-se mais facilmente na região abdominal, sobretudo sob a forma de gordura visceral, que se acumula em torno dos órgãos internos, como o fígado, o estômago e os intestinos. Esta gordura não é apenas uma reserva energética, funciona como um verdadeiro órgão metabólico, produzindo substâncias inflamatórias e aumentando o risco cardiovascular e metabólico.
Porque sente que o metabolismo ficou mais lento?
Existem três protagonistas silenciosos nesta fase: perda de estrogénio, aumento da resistência à insulina e perda progressiva de massa muscular. E os três estão intimamente ligados.
A insulina: a hormona que influencia muito mais do que o açúcar
Quando as células respondem menos à ação da hormona insulina, desenvolve-se aquilo que chamamos de resistência à insulina. Como compensação, o organismo produz mais desta hormona, favorecendo o armazenamento de gordura e dificultando a sua mobilização, principalmente na região abdominal, o aumento do apetite, a maior tendência para desejo de açúcar e o agravamento inflamatório. Alguns dos sinais incluem: vontade constante de doces, fome intensa ao final da tarde, dificuldade em perder peso, energia instável e cansaço após as refeições.
O músculo: o órgão metabólico de que quase não se fala
A partir dos 35 a 40 anos, e de forma mais marcada após a menopausa, a mulher vai perdendo massa muscular de forma progressiva.
O músculo é um dos tecidos metabolicamente mais ativos do organismo. Quanto menos músculo existe, menor é o gasto energético, maior é a tendência para acumular gordura, pior é a sensibilidade à insulina e menor é a força física. Isto justifica quando a mulher diz que mantem praticamente o mesmo peso, mas sente um corpo completamente diferente: menos firmeza, mais flacidez, mais gordura abdominal e menos energia.
E o stress, ainda tão pouco valorizado
O cortisol é frequentemente chamado de hormona do stress. Em situações normais, ajuda-nos a adaptar aos desafios do dia a dia, aumentando naturalmente de manhã e diminuindo progressivamente ao longo do dia.
Quando o organismo vive permanentemente em alerta, seja por excesso de trabalho, falta de sono, preocupações constantes ou sobrecarga mental, o cortisol pode permanecer elevado durante demasiado tempo. Favorece acumulação de gordura abdominal, aumento do apetite, desejo por alimentos ricos em açúcar, pior qualidade do sono e agravamento da resistência à insulina.
A boa notícia é que estas alterações não significam que tenha perdido o controlo sobre a sua saúde ou o seu metabolismo. Hoje compreendemos muito melhor os mecanismos envolvidos e sabemos que existem estratégias capazes de ajudar o organismo a adaptar-se a esta nova fase da vida.
É precisamente sobre elas que falaremos no próximo artigo.
Vera Santos
Médica | Clínica Geral & Bem-Estar
Medicina Estética Regenerativa & Saúde Íntima da Mulher