Porque é que a gordura abdominal aumenta na Peri/Menopausa?
“Eu não mudei assim tanto a alimentação, então porque é que a barriga aumentou tanto?”
É verdade. Na menopausa e na perimenopausa, o corpo feminino muda profundamente a forma como gere energia, gordura, músculo e inflamação. Não é apenas uma questão de “comer mais” ou “mexer-se menos”. É o resultado de biologia, das hormonas, do metabolismo, do stress, do sono, da inflamação e da sobrevivência metabólica.
O corpo feminino muda ao longo das diferentes fases da vida e a distribuição da gordura também. Durante a fase reprodutiva, o estrogénio ajuda a direcionar maior acumulação de gordura para zonas como ancas e coxas. É um padrão metabolicamente mais protetor.
Com a redução progressiva do estrogénio, especialmente na perimenopausa e menopausa, essa distribuição altera-se. A gordura passa a acumular-se mais facilmente na região abdominal, sobretudo gordura visceral, aquela gordura que envolve os órgãos internos e não é apenas estética. Comporta-se como um órgão metabolicamente ativo, produzindo substâncias inflamatórias associadas a resistência à insulina, aumento do risco cardiovascular, inflamação crónica de baixo grau, fadiga, pior qualidade do sono e emagrecer torna-se mais difícil. Por isso, muitas mulheres sentem que a cintura aumenta, o corpo “desorganiza-se”, ganham volume abdominal rapidamente e emagrecer torna-se muito mais difícil do que antes.
Nesta fase existe outra hormona muito importante, com um papel silencioso: o cortisol. Conhecido como a hormona do stress, o cortisol ajuda o organismo a adaptar-se aos desafios do dia a dia. Em condições regulares, segue o ritmo circadiano: aumenta de manhã e diminui progressivamente ao longo do dia. O problema surge quando o organismo vive em estado de alerta constante, quer seja por excesso de trabalho, sobrecarga mental, noites mal dormidas, ansiedade, falta de recuperação física e emocional. Nessas circunstâncias, o cortisol mantém-se elevado durante demasiado tempo e o corpo interpreta isso como um sinal de ameaça. Quando acontece, aumenta a tendência para acumular gordura abdominal, cresce a vontade de consumir açúcar e hidratos rápidos, o sono piora, a sensibilidade à insulina diminui e o corpo torna-se metabolicamente mais “económico”, criando um ciclo progressivo de desregulação metabólica. Um corpo em stress crónico, entra em modo de sobrevivência, não prioriza equilíbrio metabólico nem perda de gordura e a resistência à insulina é um dos grandes protagonistas.
A insulina é a hormona responsável por ajudar a glicose a entrar nas células. Mas, com o tempo, excesso de stress, sedentarismo, perda muscular e alterações hormonais, o organismo pode começar a responder pior à sua ação. O resultado? O corpo precisa de produzir mais insulina para conseguir o mesmo efeito. E os níveis elevados de insulina favorecem o maior armazenamento de gordura, maior dificuldade em mobilizar a gordura abdominal, mais fome, mais compulsão alimentar e mais inflamação. As mulheres sentem aumento da fome ao final do dia, vontade constante de doces, energia instável, cansaço após refeições, dificuldade em emagrecer mesmo “a fazer dieta” e a perda muscular acelera.
Existe ainda uma mudança muito importante e ignorada: a perda progressiva de massa muscular. Após os 35 a 40 anos, e especialmente após a menopausa, a mulher perde músculo mais rapidamente, o que altera o metabolismo feminino e muda toda a perspetiva. O músculo é um dos tecidos metabolicamente mais ativos do corpo. Quanto menor a massa muscular, menor é o gasto energético, maior a tendência para acumular gordura, maior a resistência à insulina e menor a força e vitalidade. É por isso que muitas mulheres mantêm o peso, mas sentem um corpo completamente diferente, com menos firmeza, mais flacidez, mais gordura abdominal e menos energia. Então o que realmente ajuda?
A resposta não está em dietas extremas nem em punição alimentar. Está sim em compreender o novo funcionamento do corpo feminino e adaptar a estratégia. Os pilares mais importantes nesta fase são cinco:
1. O treino de força: É provavelmente uma das intervenções mais importantes, pois ajuda a preservar músculo, melhorar a sensibilidade à insulina, aumentar o gasto energético, proteger os ossos e melhorar metabolismo e composição corporal.
2. A proteína adequada: Maioritariamente as mulheres comem proteína insuficiente, e esta é essencial para preservar massa muscular, controlar saciedade, estabilizar glicemia e melhorar recuperação.
3. O sono: Dormir mal altera o cortisol, a sensação de fome, várias outras hormonas como a leptina e a grelina, e ainda a sensibilidade à insulina. Um corpo cansado tende a acumular mais gordura.
4. A gestão do stress: O sistema nervoso influencia diretamente o metabolismo e regular o ritmo de vida é uma forma de tratamento, de ajuda e de equilíbrio.
5. A avaliação hormonal e metabólica individualizada: Cada mulher tem um padrão diferente. O benefício pode estar em otimização hormonal, correção de défices, suporte metabólico, estratégias específicas para resistência à insulina ou acompanhamento multidisciplinar.
O mais importante não é falta de disciplina e várias mulheres culpabilizam-se nesta fase, mas o problema raramente é “falta de força de vontade”. O corpo feminino muda profundamente na menopausa e o metabolismo muda com ele.
A boa notícia é que hoje compreendemos muito melhor estes mecanismos. E quanto mais cedo a mulher entende o que está a acontecer, mais eficazmente consegue recuperar equilíbrio, energia, composição corporal e qualidade de vida.
Porque envelhecer não deve significar perder força, energia ou funcionalidade e compreender o corpo e estas mudanças é o primeiro passo para recuperar equilíbrio metabólico, vitalidade e qualidade de vida.
Vera Santos
Médica | Clínica Geral & Bem-Estar
Medicina Estética Regenerativa & Saúde Íntima da Mulher